segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A ORIGEM DO ALFABETO E OS SELOS DE JERUSALÉM


O alfabeto foi inventado em algum momento no segundo milênio a.C. na Península do Sinai a partir de ideogramas egípcios. Alguém (ou um grupo de pessoas) percebeu que 22 consoantes funcionavam muito melhor que aquela infinidade de símbolos. Uma baita de uma ideia, não acha?

Os fenícios aperfeiçoaram esse alfabeto, que também foi usado pelos cananeus e hebreus (aliás, o hebraico é um dialeto cananeu). No selo da imagem, do século VII a.C., é possível ler: “Pertencente a Ezequias [filho] de Acaz, rei de Judá”. Cobri em vermelho a palavra “rei” (consoantes M-L-K) para que você possa visualizar melhor. Bem, mas este selo foi divulgado pela imprensa no final de 2015. O que há de novo?

Dois jornais de Israel – o Haaretz e o JPost – acabam de anunciar que a Autoridade de Antiguidades de Israel vai expor ao público (em 07/09/17) uma coleção de selos descobertos na cidade velha de Jerusalém em escavações realizadas nos últimos anos.

Você pode ler a notícia e as implicações da descoberta nos dois jornais de Israel ou tomar conhecimento pelo portal Gospel Mais, que certamente vai deturpar toda a história num sensacionalismo de dar medo.  Então, não perca tempo, escolha a primeira opção.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O DEUTERONÔMIO E OS TRATADOS DE ESARHADDON

No âmbito acadêmico é amplamente aceita a ideia de que o livro do Deuteronômio, em uma forma mais primitiva, constitui uma apropriação subversiva da ideologia imperial neo-assíria a favor de um teocentrismo javista: um texto deliberadamente concebido para minar a autoridade do rei assírio colocando YHWH em seu lugar [sob Ezequias? Manassés? Josias?].

Tal suspeita tem suas raízes no reconhecimento praticamente consensual das semelhanças entre os elementos do Deuteronômio - especialmente os capítulos 13 e 28 - e os tratados vassalos e juramentos assírios de fidelidade, com especial incidência no Tratado de Sucessão de Esarhaddon, comumente denominado VTE.

O livro em destaque, disponível gratuitamente para download no site da SBL, pretende apresentar alguns pontos frágeis dessa teoria. As bases de suas críticas: 1. O sucesso da subversão exige que a audiência reconheça a relação entre o texto subversivo e a fonte que pretende subverter; 2. Nem Dt 13 nem Dt28 usam palavras ou frases de VTE com a precisão necessária para tornar esse relacionamento reconhecível. Boa leitura!


Jones F. Mendonça

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

FUNDAMENTALISMOS

Mais perigoso é o fundamentalista inseguro, ressentido. Para mascarar suas dúvidas, seus medos, suas frustrações, ele agride, tenta de todos os modos impor ao outro suas crenças. Um moribundo com uma bomba guardada na alma.



Jones F. Mendonça

PEQUENO CONTO SUBLIMINAR

Chegaram da palestra com aquele papo de mensagem subliminar. Torci logo o nariz. Isso foi em 94 ou 95. Mas tinha em casa tudo o que precisava: uma velha vitrola e dois LPs que diziam ser “dos infernos”. Inverti os fios do motor da vitrola para que rodasse ao contrário, pus o LP no prato e a chiadeira logo começou. Pensei: caíram na conversa mole desses fundamentalistas paranoicos.

Mas eis que num trecho deu pra ouvir: “corre, corre, quero fumar!”. O silêncio foi geral. Eu, cético como sempre, não me dei por vencido e pedi pra colocar outra música, afinal tudo fora muito rápido. Mais chiadeira. Mas então deu pra perceber que havia entrado o refrão e todos ouvimos claramente: “a [...] nas trevas vive, acho que a virgem quer mudar de nome!”. Houve um silêncio apocalíptico. Todos com um olhão desse tamanho!

Bem, eu não sei quem colocou a frase nos trilhos do LP e nem a razão. Se foi por pacto, se foi por brincadeira, se foi por marketing. Mas que foi uma noite muito da mal dormida, ah, foi!


Jones F. Mendonça

RESSENTIMENTO E VIOLÊNCIA

O problema do fundamentalismo islâmico não é exatamente o Corão. Cristãos e judeus também souberam (e sabem) justificar a violência a partir de suas escrituras sagradas. Um lê: “ama o teu próximo”; o outro lê: “não vim trazer a paz, mas a espada”. Um é Luther King; o outro é Inquisição. E não importa aqui como devem ser lidos, mas como leem.

É preciso buscar na história as raízes do radicalismo islâmico que choca o mundo. Em três etapas: 1) O Império Turco Otomano sucumbe após a Primeira Grande Guerra; 2) O “Mundo muçulmano” desmorona e é explorado pelas grandes potências Ocidentais; 3) Indivíduos ressentidos, incapazes de reagir com dignidade, com inteligência, com decência, usam a religião como fundamento para sua guerra santa.

Enfim, no fundo o problema do fundamentalismo violento é o mesmo: o ressentimento. O verme que corrói a alma de membros da Ku Klux Klan é o mesmo que mastiga as vísceras de um membro do ISIS. São fracos fingindo que são fortes. Covardes sob o manto da valentia.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 22 de agosto de 2017

SEIS OU NOVE

Tonta diz que é um seis. Louca grita que é um nove. Bobinho insiste na tese de que a verdade tem muitas faces, que ambas têm razão. Vero examina a placa, olha o seu verso, percebe uma pequena alça numa das extremidades mais largas e dispara: considerando a intenção de quem o projetou, é um seis. Moral da história: fora do contexto as verdades são líquidas. No contexto as verdades são sólidas. O resto é conversa fiada.



Jones F. Mendonça

sábado, 19 de agosto de 2017

DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Ora, se as liberdades individuais fossem absolutas, elas se aniquilariam pelo conflito. A todos os direitos devem ser impostos limites. Embora a Primeira Emenda americana defenda a livre expressão, a Suprema Corte desse país não vê esse direito como absoluto e permite restrições ao discurso verbal ou falado em algumas poucas áreas (obscenidade, difamação, fraude, etc.).

Alguns querem impor limites ao que um professor diz em sala de aula. Outros pedem exclusividade no uso de seus símbolos religiosos. Outros querem que os comerciais de TV não anunciem um produto cuja qualidade não condiz com a real. Outros ainda não querem feministas mostrando os seios em passeatas.

Estranho mesmo é quando essas mesmas pessoas, ao mesmo tempo em que defendem tais limites (algumas vezes ridículos), levantam a voz em defesa da livre expressão de racistas e xenófobos. É a vida humana sendo colocada abaixo de preceitos morais secundários.



Jones F. Mendonça

terça-feira, 15 de agosto de 2017

OS RABINOS, O FRANGO E O QUEIJO

Uma das mais conhecidas leis kosher (regra de alimentação judaica) proíbe o consumo de leite e carne numa mesma refeição. Tal restrição baseia-se em Dt 14,21 “Não cozerás um cabritinho no leite de sua mãe”.

Filon de Alexandria, judeu helenista do primeiro século, leu a restrição de forma literal e a compreendeu como tendo caráter ético: um animal jovem não deve ser cozido no leite de sua própria mãe porque tal atitude demostraria falta de misericórdia e decência (Virtudes 141-144). Bem, se isto é certo, por que a Torah não proíbe a ingestão de ovos e carne de galinha numa mesma refeição? A lógica não seria a mesma?

A tentativa de justificar racionalmente alguns preceitos da Torah ainda faz sucesso hoje, embora as explicações careçam de fundamento sólido. É o que fazem, por exemplo, com a carne de porco, cuja condenação, em Lv 11,7, seria explicada pelos (questionáveis) malefícios que a carne suína traz ao corpo. É preciso lembrar que além da carne de porco, também é proibida a ingestão da carne de lula, camarão, siri, cação, e outros animais aquáticos sem escama ou barbatana.

As escolas de Shammai e Hillel levantaram novas questões: será que é permitido ingerir derivados do leite com carne? Mais que isso: será que podem ser postos à mesa juntos durante a refeição? Em M. Hullim 8,1 o tema é discutido. A carne em questão é a de galinha:
A galinha pode subir à mesa com queijo, mas pode não ser comida. Estas são as palavras da casa de Shammai. Mas a Casa de Hillel diz: Não pode subir à mesa, nem ser comida...

Caso queira ler as discussões rabínicas a respeito a ingestão de leite e carne numa mesma refeição, leia este artigo publicado na The Torah.


Jones F. Mendonça

sábado, 12 de agosto de 2017

IBN EZRA E A AUTORIA MOSAICA DO PENTATEUCO

No século XII um judeu chamado Ibn Ezra fez uma série de comentários expondo sete textos do Pentateuco que se lidos com atenção indicam uma autoria não mosaica.  

Ibn Ezra expõe seus argumentos de maneira obscura (temia reações iradas dos mais conservadores), mas sua argumentação foi claramente explicada por outro judeu, R. Joseph ben Eliezer Bonfils, no final do século XIV.

Não conheço nenhum livro que transcreva os comentários de Ibz Ezra em sua integridade. Neste artigo, publicado no The Torah, é possível ler seu trabalho crítico em hebraico e inglês. Uma raridade. Leia aqui.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

JUDAÍSMOS

Estamos no Antigo Israel do século VIII a.C. O rei quer governar. O sacerdote quer sacrifício. O sábio quer dar conselho. Profetas como Isaías, Oseias e Amós querem protestar contra as injustiças, sobretudo criticando reis, sacerdotes e profetas e sábios da corte (veja Is 28,7; Jr 8,9; 18,18). Não é uma relação fácil.

Quando Judá cai nas mãos dos babilônios – em 586 a.C. - a figura do rei é suprimida. O sacerdote ganha poder. Os sábios rejeitam o exílio como punição pelo pecado e as respostas prontas para os enigmas da vida. Os profetas são perseguidos, calados.

Novas potências subjugam Judá: persas, macedônios, ptolomeus, selêucidas. É sob o governo desses últimos - no século II a.C. - que nascem as seitas judaicas: saduceus, fariseus, essênios. Tentativas de adaptar suas antigas tradições a um mundo em constante transformação. Textos sapienciais, como a Sirácida e a Sabedoria, nem de longe lembram as críticas ácidas de Jó e Eclesiastes. É também no século II a.C. que nasce a literatura apocalíptica.

Judá na época de Jesus é uma região complexa: o poder político é latino, a escrita e a cultura é grega, as Escrituras Sagradas escritas em hebraico, o idioma falado o aramaico. Mais que isso: há seitas judaicas divergindo entre si. Influência do helenismo. Expectativa messiânica forte. Falta de esperança após uma sucessão de impérios dominando Judá.

No ano 70 d.C. o templo é destruído pelos romanos. Extintas as figuras do rei, do profeta e do sábio (convertido em escriba?), também chega ao fim o ofício sacerdotal. Como sacrificar sem o altar? Como cultuar sem templo? Nasce a figura o rabino, herdeiro de uma atividade muito apreciada pelos fariseus: o estudo da lei. Na sinagoga o comentário da lei substitui o culto sacrificial.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

SAUL, SAMUEL, A SIRÁCIDA E BALBUCIADORA DE ENDOR

Em 1Sm 28 Saul consulta uma mulher, mestre balbuciadora (28,7), a fim de que lhe anuncie o futuro. Saul pede para que a mulher traga Samuel dos mortos e a mulher, surpresa(?), vê um elohim, com a aparência de velho, subindo da terra (vv. 13-14). Por fim Saul percebe que se trata de Samuel.

Difícil saber exatamente o que tem em mente o autor do texto. Javé teria feito Saul violar um de seus mandamentos a fim de lhe pregar uma peça? Seria um demônio, como pensavam alguns pais da igreja? Certo mesmo é que no segundo século a.C. a crença no retorno de Samuel do sheol para profetizar aos vivos era aceita. Pelo menos é o que testemunha a Sirácida: 
46,13 Samuel foi amado pelo seu Senhor;
46,20 Mesmo depois de morrer profetizou,
anunciou ao rei seu fim;
do seio da terra elevou a sua voz para profetizar,
para apagar a iniquidade do povo.

 Jones F. Mendonça

MAMON

Um romano, no século II, olha para o tamanho e o poder do império romano e diz: eis a prova de que nossa religião é superior. Um árabe, no século VIII, olha para o tamanho e poder do império islâmico e diz: eis a prova de que nossa religião é superior. Um norte americano, no início do século XXI, olha para as 800 bases militares americanas ao redor do mundo e a grana forte que circula em Wall Street e diz: eis a prova de que nossa religião é superior.

No fundo é apenas ambição, sede de poder e administração eficiente. A religião serve apenas como liga. Ainda interpretamos o mundo como os homens das cavernas...



Jones F. Mendonça

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A RELIGIÃO, A FILOSOFIA, O DIREITO

Beatriz Bissio, em seu livro: “O mundo falava árabe” (Civilização brasileira, 2013, p. 2763, versão Kindle), expõe as razões que explicam a diferença – sob a perspectiva do direito - entre a Europa cristã e o império muçulmano, surgido no século VII:
O Império árabe-islâmico não tinha nenhum sistema legal coerente anterior [como o direito romano, adotado na Europa cristã], para valer-se dele e, além disso, para os muçulmanos [assim como para os judeus, que têm a sua halakhah] a submissão à vontade de Deus é o mandamento maior; é dele que emanam as leis [a sharia] que regulam a conduta dos fiéis e da sociedade.
No cristianismo a separação entre a religião e o direito foi facilitada pelo acolhimento das ferramentas herdadas do sistema legal do Império romano. Entre os romanos o ius (direito) era aquilo que a cidade permitia que se fizesse, sendo algo do domínio dos homens; o fas (religião) era o que a religião permitia, estando sob o domínio dos deuses. Assim, não se confundia o que era Direito com o que era religião.

Além do direito romano, a Europa cristã também acolheu a sabedoria greco-romana, que chegou a seu pleno florescimento no século XVI. No século XVIII, sob o impulso do iluminismo, pensadores franceses aprofundaram as principais ideias de Renascença, como a liberdade de expressão, a tolerância religiosa e o primado da razão. Sapera aude! (Ousa saber), como dizia Kant. Tais conquistas – é preciso enfatizar - não nascem da religião, mas da herança greco-romana.



Jones F. Mendonça

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

JUDAÍSMO E REENCARNAÇÃO

Esta frase, dita por Ovadia Yossef, proeminente rabino sefardita de Israel, revela o quanto é diversificado o judaísmo moderno sob o ponto de vista doutrinário:
As seis milhões de vítimas do Holocausto foram reencarnações das almas dos pecadores, pessoas que transgrediram e fizeram todo tipo de coisas que não deveriam ser feitas. Eles foram reencarnados para expiar” (Sermão semanal de sábado à noite em agosto de 2000).
A declaração – claro - não foi bem recebida pela grande maioria dos judeus. Não por afirmar uma doutrina estranha ao judaísmo (foi acolhida na era medieval), mas por sugerir que as vítimas do holocausto sofreram por pecados cometidos em vidas anteriores.

A fonte da citação, aqui



Jones F. Mendonça

terça-feira, 25 de julho de 2017

VALE DE HINOM, LIXÃO DE JERUSALÉM?


“A geena [forma grega para ge-hinom = vale de Hinom] é um lugar repugnante, em que se lançam sujeira e cadáveres, e nos quais os incêndios ardem perpetuamente para consumir a imundície e os ossos. Em consequência, por analogia, o julgamento dos ímpios é chamado de 'Geena'”.
Esta observação, feita no século XII d.C. pelo rabino David Kimhi, deu origem ao mito que sustenta ter existido no vale de Hinom uma espécie de depósito de lixo, usado por Jesus como metáfora para o castigo eterno destinado aos ímpios (Mt 10,28).

Mas a descrição é do século XII. Quem garante que no século primeiro o depósito já existia? Na verdade não há qualquer evidência literária ou arqueológica capaz de confirmar a existência do tal depósito de lixo.

O uso do vale de Hinom como metáfora para o castigo reservado aos ímpios vem dos profetas bíblicos: Jr 7,31-32; Is 30,33 e 66,24 (cf. 2Rs 23,10). O resto é conversa fiada (até que se prove o contrário).



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O MUNDO ISLÂMICO E A SABEDORIA ESQUECIDA

Ibn Khaldum, sábio muçulmano do século XIV, enaltecendo a figura de Al-Mamun como responsável pelo resgate da sabedoria grega, por tanto tempo esquecida: 
De uma só nação, a Grécia, possuímos exclusivamente as produções científicas graças ao amor e à solicitude de Al-Mamun [início do século IX] que encarregou sua tradução da língua original [...] Exceto essas ciências, nada conhecemos dos demais povo” (BISSIO, Beatriz. O mundo falava árabe, 2012, p. 2358, versão Kindle).
A Europa “renasceu” pela pena dos árabes muçulmanos.



Jones F. Mendonça

DA ASCENSÃO E DO DECLÍNIO

Enquanto Al-Radish e Al-Mamun no Oriente estavam se aprofundando na filosofia grega e persa, seus contemporâneos no Ocidente, Carlos Magno e seus nobres, estavam engatinhando na arte de escrever o próprio nome (P. K. Hitti, History of the Arabs. Londres: Macmillan, 1937, p. 315.).
Com o tempo este quadro praticamente se inverteu. A Europa alavancou e o Oriente islâmico mergulhou nas trevas. Sob o véu do mesmo Islã o povo de Alá ascendeu e declinou.



Jones F. Mendonça

DOS HISTORIADORES E BAJULADORES

Ibn Khaldun, sábio muçulmano do século XIV, criticando historiadores que, para conquistar favores dos príncipes ou altos funcionários, escrevem histórias contaminadas de exageros e mentiras: 
Introduziram no meio destas narrações dados incertos e indicações falsas tiradas da própria imaginação ou embelezamentos falseados com o auxílio de tradições de fraca validade. [...] não se empenharam sequer em indagar a possibilidade e a natureza dos fatos, aprofundando as causas ou levando em consideração as circunstâncias que os rodeara” (ARAÚJO, Richard Max. Ibn Khaldun: a idéia de decadência dos estados, 2007, p. 60).
Parece descrever nossa imprensa...


Jones F. Mendonça

segunda-feira, 10 de julho de 2017

LUTERO E O DECRETO MALDITO

Johanes Gratian (ou Gratiano) - monge e estudioso do século XII - é considerado o fundador do direito canônico. Em sua exaustiva obra canônica, Decretum, Gratiano compilou leis canônicas, informações históricas e práticas litúrgicas.

O trabalho de Gratiano permaneceu como texto principal de direito canônico da Igreja até o Concílio de Trento (1545-1563). Lutero, que conhecia bem o direito canônico de seu tempo, explodiu indignado com este trecho, chamado por ele de “fundamento maldito”: 
Se o papa fosse tão perniciosamente mau, a ponto de levar ao diabo uma multidão de almas, ainda assim não poderia ser deposto (Decretum Gratiani, parte I, distinctio XI, cânone 6).
Na verdade Lutero disse mais: afirmou que fora ditado pelo próprio diabo-chefe!



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 5 de julho de 2017

CALIFADO ISLÂMICO: FONTE DO SABER

1. O Renascimento europeu aconteceu graças ao trabalho de tradução da literatura clássica (greco-romana) feita por árabes muçulmanos do califado de Bagdá (abássidas). Naquele tempo um "califado islâmico", quem diria, era fonte de saber...

2. O fluxo de conhecimento entre Bagdá e o reino muçulmano instalado no sul da Espanha aumentou no século IX, permitindo que a Europa tivesse acesso ao conhecimento dos antigos.

3. Isso explica a posição de destaque dada a Averróis, sábio muçulmano da Andaluzia, na tela “A escola de Atenas” (1509/11) de Rafael Sanzio.

4. A expressão “califado” converteu-se em sinônimo de "reino de terror" graças ao radicalismo islâmico (sobretudo do ISIS), produto do século XX, nascido a partir da fragmentação do império turco otomano, ocorrida após a primeira Guerra Mundial.

5. Entenda: Jihad pode ser “guerra contra o eu”, mas também pode ser “guerra contra os infiéis”. “Lei de Deus” pode ser compreendida como “Lei do amor”, mas também como “lei da espada”, como aconteceu no período das Cruzadas e na teocracia calvinista de Genebra.

6. Religiões são como barro na mão do oleiro. Podem estar a serviço do amor, mas também da guerra, da opressão e do terror. E não há uma que escape dessa ciranda perversa.


Jones F. Mendonça

quinta-feira, 29 de junho de 2017

LUTERO: A IMPRENSA COMO SERVA DA RELIGIÃO

O primeiro escritor a conduzir com êxito um movimento intelectual mediante o recurso à imprensa foi Lutero (bem, pelo menos no chamado “mundo ocidental”).

As famosas 95 teses (1517) estavam disponíveis em toda a extensão do sacro império romano alemão em duas semanas.

A primeira edição de “À nobreza cristã” (1520), com quatro mil exemplares, esgotou-se em uma semana.

Lutero digeriu manuais de oratória do período clássico (como De orare, de Cícero). Surfou na onda do humanismo sem jamais mergulhar em suas águas. Eis um exemplo:

“Pois, é melhor que se arruíne a literatura do que a religião, se a literatura não quiser se colocar a serviço da religião” (Carta de Lutero a Nicolau von Amsdorf, 1534).



Jones F. Mendonça

terça-feira, 27 de junho de 2017

TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO

São evidentes as relações entre o substantivo e o verbo em nosso idioma: O verbo “comer”, por exemplo, está para o substantivo “comida”, assim como o verbo “escovar” para o substantivo “escova”. Em diversos idiomas a coisa funciona assim.

Com o hebraico bíblico não é diferente. Mas algumas dessas relações causam certa estranheza. Um exemplo: o substantivo “vestido” (= “pano para cobrir”) e o verbo “falsear” vêm de uma mesma raiz (BGD). “Vestido” é grafado como BeGeD e “falsear” como BaGaD. Mas que ligação poderia haver entre as duas palavras?

Uma boa pista aparece em Jr 12,1: “Por que prosperam tranquilamente todas as VESTES (beged) DE FALSIDADE?” (bagad).

A relação parece ser a seguinte:

- O verbo BaGaD indica uma “ação de cobrir com tecido” (ou de ocultar, e, por conseguinte, de falsear, enganar, etc.).
- O substantivo BeGeD indica “aquilo que serve para cobrir” (ou simplesmente, “tecido”, “veste”, “roupa”, etc.).

A questão foi levantada ontem, em salada de aula pelo Lucas Bernardes, enquanto discutíamos o que seriam as “vestes sujas” do sacerdote Josué em Zc 3,3. O dicionário Strong traduz - em sua primeira opção - BeGeD como “engano” e não como “vestes”. Caso seguíssemos o conselho do Strong, o texto seria traduzido assim: “Josué estava vestido de ENGANOS SUJOS”!

Moral da história: traduzir textos, sobretudo textos antigos, jamais poder ser uma atividade mecânica. É preciso compreender a cabeça, o mundo no qual estava inserido o escritor do texto.



Jones F. Mendonça

REFORMA, POLÍTICA E PODER

Talvez seja algo decepcionante para você, mas ninguém sabe ao certo se Lutero afixou mesmo suas 95 teses na porta da igreja de Wittemberg. E mais: As teses foram escritas em latim, idioma pouco conhecido da maior parte dos alemães do século XVI. São românticas as imagens mostrando um Lutero irado pregando teses incendiárias na porta da igreja de Wittemberg diante de um público inflamado.

Certo mesmo é que as teses foram enviadas a Roma e acabaram nas mãos do teólogo papal Silvestre Mazzolini. Mazzolini, que era dominicano, viu as teses como um ataque à teologia tomista-escolática, tão querida dos dominicanos e desprezada por agostinianos como Lutero. Não sabe o que é uma teologia tomista-escolástica?

Os dominicanos escolásticos acreditavam ser possível expor os dogmas de fé - como o “mistério da trindade” - usando a lógica aristotélica. Lutero detestava isso. Em sua tese 49, dirigida aos escolásticos (escritas ANTES das famosas 95 teses), o monge agostiniano dá as razões de seu descontentamento: 
Se uma fórmula silogística [amplamente empregada pelos escolásticos] subsistisse em questões divinas, o artigo sobre a Trindade seria conhecido, em vez de ser crido.
Trocando em miúdos: o estopim da Reforma está na disputa entre dominicanos e agostinianos. Os príncipes alemães, ávidos pela tomada das terras da igreja, aproveitaram-se da situação. E só então a Reforma de fato aconteceu.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 23 de junho de 2017

PROTESTANTISMO E PROTESTO

Dizer que o termo “protestante” nasceu a partir das críticas de Lutero à venda de indulgências e outros abusos da igreja é um equívoco. Na verdade o termo surgiu como reação de alguns príncipes alemães contra a dieta imperial de Espira, que proibia as práticas luteranas. E isso só aconteceu em 1529, doze anos depois das 95 teses de Lutero!


Jones F. Mendonça

terça-feira, 20 de junho de 2017

MEIA JORNADA

Bobinho sofria de angústia da alma. Decidiu buscar ajuda no velho sábio da montanha. Separou botas, cordas, capacete, mochila, mosquetões e iniciou a escalada. Era inverno. Fazia muito frio. O vento deslizava assoviando entre os flocos de neve.

Não foi uma subida fácil: pouco oxigênio, avalanches constantes, dedos congelados, fadiga intensa. Venceu o desânimo. Entre uma parada e outra observava o alvo infinito. Aproveitava para refletir sobre seus medos mais profundos. Vez por outra seu olho apertava uma lágrima.

Finalmente chegou ao topo. Uma pequena placa trazia o seguinte recado: “Rejeitei a ascese. Abandonei a clausura. Mudei-me para os trópicos”. Mas Bobinho não sabia ler. Ficou sentado esperando o velho sábio retornar com um remédio pronto para a sua dor.

Tivesse escalado outras montanhas. Tivesse enfrentado com mais força seus medos mais profundos. Mas deteve-se no meio do caminho. Morreu de frio na solidão das alturas.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 14 de junho de 2017

NÃO É SAUDADE, É DESEJO!

Gn 3,16, na Almeida Revista e Atualizada (ARA), é traduzido tal como consta abaixo:

E à mulher disse... o teu DESEJO (teshuqah) será para o teu marido.

Bem, se “teshuqah” é “desejo”, então por que em Cantares 7,10, em meio a declarações quentíssimas, “teshuqah” aparece traduzida - na mesma Almeida - deste jeito:

Eu sou do meu amado, e ele tem SAUDADES (teshuqah) de mim.

Assim não dá...



Jones F. Mendonça

ZOROASTRISMO COM ALMUT HINTZE

Antes de ser islamizado, no século VII d.C., o Irã professava o zoroastrismo, religião caracterizada pelo dualismo ético, cósmico e teogônico. 

Caso você tenha interesse pela religião dos persas e o eco de suas crenças na tradição judaico-cristã, sugiro uma visita à página de Almut Hintze no Academia.edu. Destaque para: “O Salvador e o Dragão na Escatologia Iraniana e judaico-cristã”

Hintze é Professora de Zoroastrismo na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.  


Coisa fina. Acesse aqui


Jones F. Mendonça

VENTRES QUE GEMEM

O capítulo 2 de Lamentações possui 22 versos, cada um iniciando com uma consoante do alfabeto hebraico: álef, bet, guímel, dálet... Beleza que só pode ser contemplada no idioma original.

Mas a qualidade do lamento bíblico tem outros tons. A dor pela destruição de Jerusalém, no século VI a.C., é expressa nos seguintes termos (tradução bem literal):

“De lágrimas consomem-se meus olhos, 
de tremor minhas entranhas
por terra derrama-se meu fígado” (Lm 2,11).

É nas entranhas, pelo uso de expressões literalmente viscerais, que a dor, a excitação, a angústia, a ansiedade encontram lugar na poesia hebraica.

A amada de Cantares, excitada pela presença do amado à porta, diz extasiada:

“minhas entranhas (ou ventre) gemeram por amor dele” (Ct 5,4).

Ventre que geme na força desejo.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de junho de 2017

AS DUAS FACES DE Z(S)EDECIAS

A relação entre o profeta Jeremias e o rei Zedequias, nos capítulos 37-40 do livro do profeta Jeremias (versão hebraica), foi relatada de forma diferente na versão grega das Escrituras (chamada de Septuaginta ou simplesmente LXX).

Na versão grega o nome do rei é grafado como Sedecias e a história é contada nos capítulos 44-47. Outra diferença é que na LXX Sedecias é retratado com uma face mais cruel e opositora a Jeremias. Seu nome raramente aparece no texto.

Leia aqui o ensaio completo, por Shelley L. Birdsong, no The Bible and Interpretation.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 7 de junho de 2017

ZÉ BOBINHO, LUTERO E O PAPA

Zé Bobinho, empolgado com os 500 anos da Reforma e desejando polemizar contra os católicos, dispara a seguinte tese de Lutero contra as indulgências: 
Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior que as dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro a Basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres? (Tese 86).
Bobinho imagina, em sua leitura apressada, que Lutero está criticando o papa. Mas é preciso ler a tese em seu contexto.

A Tese 81 explica que perguntas como estas, “perspicazes”, com teor “calunioso” e que “ofendem a dignidade do papa”, são feitas por leigos, enganados pelos gananciosos e mal intencionados pregadores de indulgências.

Enfim, Lutero está dizendo que, por culpa dos pregadores de indulgências, o papa está sendo caluniado com acusações falsas, tais como aquela que ele relata na tese 86.

Críticas ao papa só começam após da reação negativa da cúria romana às suas teses. Leia as 95 teses de Lutero aqui (a partir da pg. 22). 



Jones F. Mendonça