quinta-feira, 22 de novembro de 2012

RASCUNHOS ESCATOLÓGICOS: A ARTE DE COSTURAR SONHOS


São Miguel, Ercole de Roberti
1470-73, Museu do Louvre
A escatologia, estudo das últimas coisas (ou das coisas últimas, como queiram), é um dos temas mais controversos do cristianismo. Nas teologias sistemáticas é aquela salada: Isaías + Ezequiel + Daniel + Jl + Zc + Dn +Mt + 2Ts + cartas joaninas + Apocalipse = mapa detalhado do fim dos tempos. Os teólogos são alfaiates, que cheios de criatividade costuram com muitos ajustes e remendos o destino da humanidade.

No Antigo Testamento as formulações escatológicas fluem como o rio de Heráclito. Inicialmente a era de ouro é apresentada como um governo davídico redivivo (como Is 9,1-6; 11,1-10; 16,5; Jr 23,5s.; 33,5s.). É o futuro à luz do passado. Não há céu nem inferno, só o Sheol, mundo de sombras, onde não há conhecimento nem sabedoria. No Egito já se falava em ressurreição, como atestam textos da XVIIIª Dinastia (1550-1307). Em Israel pregavam-se apenas recompensas terrenas. Ainda não havia surgido remédio para a morte.

Num segundo estágio (ou terceiro, como se verá adiante) surge a ideia de um governo divino sobre um povo restaurado. É o próprio Yahweh quem intervém no mundo. No chamado “grande apocalipse de Isaías” (Is 24-27, texto que deve ser datado para um período que vai do século VI ao IV e que não deve atribuído ao proto-Isaías), consta que Yahweh vai “arrasar e devastar a terra”, punindo todos os que “desobedecem aos seus decretos”. Sinais nos céus anunciarão este dia, no qual Yahweh “destruirá a morte” e “enxugará toda a lágrima”. A ira de Yahweh, executada por meio de sua “espada severa”, castigará o Leviatã, a “serpente veloz” (uma variante lingüística para Lotan, um dragão derrotado por Baal na mitologia de Ugarit) e Israel, finalmente, será um só povo. Surge o antídoto para a morte (vida eterna na terra e ressurreição dos mortos), mas ainda não se fala em céu (recompensa num mundo supraterreno), nem em inferno (punição eterna).

É curioso notar que no Trito-Isaías (Is 65-66), aparentemente escrito numa época mais recente, não aparece a crença na vida eterna na terra, mas a esperança de que o povo de Yahweh terá “vida longa como a árvore” (ver Is 65,20-22). Tampouco se fala em ressurreição dos mortos. Ao que parece, se considerarmos a ideia da ressurreição uma inovação dos teólogos israelitas do período exílico ou persa, Is 65-66 possui uma redação mais antiga que Is 24-27. Talvez seja necessário inserir o pequeno apocalipse de Isaías entre o primeiro e o segundo estágio. Caso consideremos até aqui uma evolução em três estágios, as idéias escatológicas fluem da seguinte forma:
1) Primeiro estágio: Messias da dinastia davídica (Proto-Isaías);

2) Segundo estágio: É o próprio Yahweh quem restaura Israel (Trito-Isaías – Is 65-66);

3) e o terceiro estágio: Ressurreição dos mortos e a vida eterna (Grande apocalipse de Isaías – Is 24-27). 
No último estágio, bem representado pelo livro de Daniel (que deve ser situado na época do levante macabeu e não no século VI), aparecem algumas inovações: fala-se de uma ressurreição para a “vida eterna” e outra para a “vergonha eterna” (Dn 12,2). A intervenção divina se dará pela ação de um “rei guerreiro” (Dn 11,3). Vale notar a designação dada a Yahweh como “Deus do céu”, presente em livros pós-exílicos como Esd, Ne, Jt e Tb. Yahweh ultrapassa sua limitação à religião judaico-israelita e se torna o Deus universal. Não é sem razão que este último estágio tem sido chamado de “estágio transcendental”. O embate entre Miguel, o “cabeça dos primeiros” e seu oponente, o “cabeça do reino da Pérsia”, anuncia o dualismo que vai marcar toda a teologia do Novo Testamento.

Em breve espero publicar algo sobre a escatologia nos livros apócrifos.


Jones F. Mendonça

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