sexta-feira, 23 de junho de 2017

PROTESTANTISMO E PROTESTO

Dizer que o termo “protestante” nasceu a partir das críticas de Lutero à venda de indulgências e outros abusos da igreja é um equívoco. Na verdade o termo surgiu como reação de alguns príncipes alemães contra a dieta imperial de Espira, que proibia as práticas luteranas. E isso só aconteceu em 1529, doze anos depois das 95 teses de Lutero!


Jones F. Mendonça

terça-feira, 20 de junho de 2017

MEIA JORNADA

Bobinho sofria de angústia da alma. Decidiu buscar ajuda no velho sábio da montanha. Separou botas, cordas, capacete, mochila, mosquetões e iniciou a escalada. Era inverno. Fazia muito frio. O vento deslizava assoviando entre os flocos de neve.

Não foi uma subida fácil: pouco oxigênio, avalanches constantes, dedos congelados, fadiga intensa. Venceu o desânimo. Entre uma parada e outra observava o alvo infinito. Aproveitava para refletir sobre seus medos mais profundos. Vez por outra seu olho apertava uma lágrima.

Finalmente chegou ao topo. Uma pequena placa trazia o seguinte recado: “Rejeitei a ascese. Abandonei a clausura. Mudei-me para os trópicos”. Mas Bobinho não sabia ler. Ficou sentado esperando o velho sábio retornar com um remédio pronto para a sua dor.

Tivesse escalado outras montanhas. Tivesse enfrentado com mais força seus medos mais profundos. Mas deteve-se no meio do caminho. Morreu de frio na solidão das alturas.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 14 de junho de 2017

NÃO É SAUDADE, É DESEJO!

Gn 3,16, na Almeida Revista e Atualizada (ARA), é traduzido tal como consta abaixo:

E à mulher disse... o teu DESEJO (teshuqah) será para o teu marido.

Bem, se “teshuqah” é “desejo”, então por que em Cantares 7,10, em meio a declarações quentíssimas, “teshuqah” aparece traduzida - na mesma Almeida - deste jeito:

Eu sou do meu amado, e ele tem SAUDADES (teshuqah) de mim.

Assim não dá...



Jones F. Mendonça

ZOROASTRISMO COM ALMUT HINTZE

Antes de ser islamizado, no século VII d.C., o Irã professava o zoroastrismo, religião caracterizada pelo dualismo ético, cósmico e teogônico. 

Caso você tenha interesse pela religião dos persas e o eco de suas crenças na tradição judaico-cristã, sugiro uma visita à página de Almut Hintze no Academia.edu. Destaque para: “O Salvador e o Dragão na Escatologia Iraniana e judaico-cristã”

Hintze é Professora de Zoroastrismo na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.  


Coisa fina. Acesse aqui


Jones F. Mendonça

VENTRES QUE GEMEM

O capítulo 2 de Lamentações possui 22 versos, cada um iniciando com uma consoante do alfabeto hebraico: álef, bet, guímel, dálet... Beleza que só pode ser contemplada no idioma original.

Mas a qualidade do lamento bíblico tem outros tons. A dor pela destruição de Jerusalém, no século VI a.C., é expressa nos seguintes termos (tradução bem literal):

“De lágrimas consomem-se meus olhos, 
de tremor minhas entranhas
por terra derrama-se meu fígado” (Lm 2,11).

É nas entranhas, pelo uso de expressões literalmente viscerais, que a dor, a excitação, a angústia, a ansiedade encontram lugar na poesia hebraica.

A amada de Cantares, excitada pela presença do amado à porta, diz extasiada:

“minhas entranhas (ou ventre) gemeram por amor dele” (Ct 5,4).

Ventre que geme na força desejo.



Jones F. Mendonça

sexta-feira, 9 de junho de 2017

AS DUAS FACES DE Z(S)EDECIAS

A relação entre o profeta Jeremias e o rei Zedequias, nos capítulos 37-40 do livro do profeta Jeremias (versão hebraica), foi relatada de forma diferente na versão grega das Escrituras (chamada de Septuaginta ou simplesmente LXX).

Na versão grega o nome do rei é grafado como Sedecias e a história é contada nos capítulos 44-47. Outra diferença é que na LXX Sedecias é retratado com uma face mais cruel e opositora a Jeremias. Seu nome raramente aparece no texto.

Leia aqui o ensaio completo, por Shelley L. Birdsong, no The Bible and Interpretation.



Jones F. Mendonça

quarta-feira, 7 de junho de 2017

ZÉ BOBINHO, LUTERO E O PAPA

Zé Bobinho, empolgado com os 500 anos da Reforma e desejando polemizar contra os católicos, dispara a seguinte tese de Lutero contra as indulgências: 
Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior que as dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro a Basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres? (Tese 86).
Bobinho imagina, em sua leitura apressada, que Lutero está criticando o papa. Mas é preciso ler a tese em seu contexto.

A Tese 81 explica que perguntas como estas, “perspicazes”, com teor “calunioso” e que “ofendem a dignidade do papa”, são feitas por leigos, enganados pelos gananciosos e mal intencionados pregadores de indulgências.

Enfim, Lutero está dizendo que, por culpa dos pregadores de indulgências, o papa está sendo caluniado com acusações falsas, tais como aquela que ele relata na tese 86.

Críticas ao papa só começam após da reação negativa da cúria romana às suas teses. Leia as 95 teses de Lutero aqui (a partir da pg. 22). 



Jones F. Mendonça

terça-feira, 6 de junho de 2017

DAS INIMIZADES INVENTADAS

1. Numa carta escrita no século XI os rabinos de Jerusalém lembram a “misericórdia que Deus tivera com seu povo” quando permitiu que o “Reino de Ismael” [árabes muçulmanos] conquistasse a Palestina.

2. Para a maioria dos judeus da era medieval era mais aceitável a conversão forçada ao islamismo que ao cristianismo.

3. Maimônides, um dos mais célebres sábios judeus, escreveu boa parte de suas obras - como o famoso “Guia dos perplexos” – em árabe.

E você caindo nesse papo de que judeus e árabes muçulmanos são inimigos “desde a fundação do mundo”.



Jones F. Mendonça